Busca

Cuiabá
Carregando...

? ºC

/

Várzea Grande (MT), 21 de julho de 2018 - 14:32

Artigos

16/04/2018 09:04

Breve exposição do caos – Parte 3

Fernando Alves*

 

No dia 17 de janeiro de 1920, nos Estados Unidos, uma lei federal entrou em vigor, seria esta uma das leis proibitivas mais falhas já posta em prática. Trata-se da promulgação da 18ª Emenda da Constituição Americana, conhecida como Lei Seca Americana ou Lei Volstead. No dia em questão, foi o último dia da década em que os americanos puderam comprar sua bebida alcoólica legalmente. A vedação da comercialização (produção, transporte e venda) de bebidas perduraria por 13 anos, findando em 1933 com a 21ª Emenda.

Neste período em que o governo impôs a ordem, cessavam as vendas legais de bebidas, porém, nenhuma imposição governamental é capaz de extinguir as vontades de seus habitantes. Assim, como não era possível saciar a vontade legalmente, a saída obvia estaria em procurar a solução na ilegalidade. Foi assim que quadrilhas floresceram, pulverizando locais de consumo clandestinos, multiplicando seus lucros e criando uma guerra por controle de áreas. Estipula-se que, com o nascimento da guerra entre quadrilhas, houve uma morte diária. O grande expoente gangster, mundialmente conhecido, desta época foi Al Capone.

Qualquer semelhança com a Guerra as Drogas é pura realidade.

Agora, para continuar a sacada deste artigo é necessário que retornemos para o dia 11 de setembro de 2001. Quando dezenove terroristas sequestraram quatro aviões comerciais, lançando dois deles contra as Torres Gêmeas do complexo empresarial do Word Trade Center, em Nova York. No Sky Lobby do 78° andar da Torre Sul do Word Trade Center, sendo esta a zona de impacto, encontravam-se o chefe de batalhão, Orio Palmer, e o marechal do Corpo de Bombeiros, Ronald Paul Bucca. Orio e Bucca, ambos eram experientes corredores de maratona, chegaram mais alto que qualquer socorrista, falecendo ambos em serviço. Ronald Paul Bucca é o único oficial de bombeiros que morreu em serviço.

Em 2003, durante a Guerra do Iraque, os Estados Unidos tomaram o controle da prisão Camp Freddy, sob responsabilidade das forças britânicas, mudando seu nome para Camp Bucca. Este campo chegou a ter 27 mil detentos espalhados em 24 campos. No Camp Bucca passaram nove dos principais líderes do ISIS (Estado Islâmico). Logo, a prisão tornou-se um centro de recrutamento, onde quem fosse colocado lá deveria permanecer sob as ordens de uma versão estrita da lei islâmica. Cabe frisar que o ISIS é uma derivação da Al-Qaeda, organização esta responsável pelos atentados de 11 de setembro, onde Bucca morreu, sendo homenageado posteriormente com a atribuição do seu nome a prisão que seria ninho de recrutamento do Estado Islâmico.

Não foi apenas na Guerra do Iraque, com o Camp Bucca que prisões foram utilizadas como formas de recrutamento de recursos humanos para organizações criminosas.

Juntando os dois recortes históricos e trazendo para a nossa realidade, não fica difícil compreender que estamos vivendo exatamente isto. Há no Brasil não há uma guerra contra as bebidas alcoólicas, mas uma explicita batalha contra as drogas. Vejamos os números de incursões policiais na Cracolandia em São Paulo, por exemplo.

Num exemplo mais próximo de nossa realidade, podemos observar as ações promovidas pelo estado acerca da Ilha da Banana, local conhecido pela presença de usuários de entorpecentes, promovendo a expulsão de seus hospedeiros e iniciando a demolição do lugar. Toda essa demanda de forças, paliativa, apenas serviu para deslocar os usuários de um lugar para outro.

Resumo, os usuários continuaram usuários, pois mesmo que o estado tenha imprimido sua vontade através da força de policia, o desejo pelas drogas continuaram. A demanda ainda existe, e se o objeto não é licito, resta procurar nas vias ilegais para a sua satisfação. Assim, o usuário encontra na droga ilícita, que não paga impostos e nem passa por testes de qualidades, vendida pelo traficante que lucra cem por cento em cima do produto, a sua satisfação.

O traficante gera demanda de um fornecedor, e o fornecedor necessita de um produtor. Para fazer essa ponte, a logística torna-se imprescindível. Para manter tudo isso, organizado, pessoas se juntam e daí nascem as organizações criminosas. Para manter a hegemonia, grupos disputam com outros o comando de bocas, territórios, localidades, rotas. Por vezes resultando são mortes.

E assim vamos construindo uma indústria de tamanhos excepcionais e forças comunais. Porém, é preciso vislumbrar pontos que são fulcrais na manutenção de todo este ecossistema que está cada vez mais organizado e inteligente.

Para que uma indústria quebre é preciso que duas coisas aconteçam: que ninguém queira ou precise trabalhar nela, e que não tenha consumidores de seus produtos.

Quem passa pela cadeia, encontra, após a sua soltura, dificuldades ímpares para se estabelecer na sociedade. Principalmente numa sociedade em que se está cultivando a ideia de “bandido bom é bandido morto”, uma verdadeira “inquisição social”. Eis que emerge a pergunta: como tirar alguém da criminalidade se a sociedade não lhe oferece oportunidades de se sustentar?

A primeira proposta é a inclusão de cursos dentro dos presídios, entretanto, é necessário se observar se o curso proporciona boa aceitação no mercado de trabalho. O Pronatec ofereceu cursos para detentos, entre eles o de Auxiliar de Biblioteca. O curso é bom, mas vejo dificuldade em ver a absorção de vários profissionais no mercado. Assim, dificuldades são impostas para se abrirem portas, enquanto a indústria que se fortifica na cadeia ou capta novos colaboradores antes dela, continua sendo a opção mais viável.

O segundo ponto é a diminuição de clientes da tal ‘indústria’, entretanto, como diminuir o numero de clientes, vide usuários, quando o remédio adotado pelo Estado baseia-se na força e na criminalização? Poucos debates se travam, não digo isso em âmbitos acadêmicos, mas sim nos lugares que podem, efetivamente, trazer um resultado legal, tal como o Congresso Nacional e nos demais poderes, com a criação de leis e entendimentos.  

Nesta tríade, temos o cara que cai no mundo do crime, ou o usuário, e vai preso. Depois, envolve-se ainda mais com o crime, seja na cadeia ou fora dela, em razão de terem suas chances reais de ressocialização mitigadas. Deste modo, a indústria se movimenta para fornecer oferta frente a demanda e absorve para si quem a sociedade não fornece novas opções. E o looping se perpetua.

Assim que resolvemos os problemas. Criando uma guerra contra algo, que de um modo ou de outro gerará lucro para alguém. Prendemos todos os “inimigos” no mesmo lugar acreditando que irão ressocializar ou reeducar e não irão se juntar. Depois estão prontos para voltarem para o meio social. Como se o meio social estivesse “educado” para aceitá-los.  

 

* Fernando Alves é acadêmico de Direito, estagiário, além de escritor e poeta amador.

@nando_allvez


VGNews

Endereço: Av. Castelo Branco-Nº.1640- Sala- 202- Agua Limpa-Várzea Grande-MT 

E-mail: vgnewsmt@gmail.com

Telefone: (65) 3686-3213 

Redes Sociais

© Copyright  2010-2017 VG News 

versão Normal Versão Normal Painel Administrativo Painel Administrativo